As sombras, sempre
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por Ciro I. Marcondes
O expressionismo é um padrão visual e conceitual que, com o passar do tempo e diluição bem rala de suas origens, acabou deixando de ser uma estética completa para se tornar uma espécie de estilema. Digo isso porque, na maioria das coisas que vejo com influência expressionista, parece existir uma intenção bem explícita de parecer expressionista, como se identificar essa predileção fizesse parte do processo de entender estas obras. Isso faz com que sempre esses efeitos pareçam somente lisonjeiros ou até paródicos. Daí coisas como o cinema de Tim Burton ou boa parte desses filmes de terror asiáticos. Nos quadrinhos acho que o fenômeno se repete, sendo o estilema um conjunto de dados visuais bem fechado. A gente pode achar isso desde na clássica história de Spiegelman “Prisioneiro do planeta inferno”, que aparece também em Maus, até nas adaptações de Kafka feitas por Peter Kuper, legais, mas bem óbvias, apesar de um quadrinista como Mutarelli flutuar na direção de uma composição bem mais orgânica com o tema.
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O que temos nesta HQ seria uma redução bem primal de certas angústias básicas e inevitáveis, num conto de fadas que ao mesmo tempo não deixa de ser uma aventura encantadora. O medo da morte, medo do crescimento, do envelhecimento, da fragmentação familiar, de perdermos nosso Éden originário (a infância, a família), de encararmos o lado torpe do mundo, etc., são temas que vão tomando estas formas oníricas, e a de se estar sonhando também é uma sensação que Três sombras nos transmite. A saída deste Éden (útero) primaveril e telúrico de pai e filho leva a um mundo de extorsão, repleto de canalhas, dissimulados, cretinos e psicopatas. Louis acredita que a força inesgotável de seu amor paternal é suficiente para vendar os olhos de seu filho para esta realidade inevitável, mas o roteiro de Pedrosa nos mostra que a persistência é também um ato dilacerado e inútil. O luto pesado, portanto, diante da morte ou do crescimento (growing pains), é algo graficamente e simbolicamente traduzido nas páginas de Três sombras. Este luto, natural a cada um de nós, é a metáfora que reside na sombra expressionista, para a qual sempre olhamos de um jeito torpe, difuso, à meia-luz.
Esta redução a arquétipos, tão mitologicamente proposta pelos pintores e dramaturgos alemães que previam uma grande transformação da psiquê humana com a virada daquele século, tem sempre na figura sinistra da morte uma concentração simbólica maior. Em Três sombras, quando a morte aparece, é para, como sempre, reafirmar seu caráter de inexorabilidade, sua emulsão sem fim de angústia, ainda que de forma plácida. Ela surge apenas para afirmar que “não pode revelar” o que há do outro lado da travessia, da mesma maneira que faz no clássico filme O sétimo selo, de Bergman, quando afirma ao cavaleiro Antonius Block “não saber” o que acontece com as almas depois que elas partem. Este filme, não por coincidência, parte do mesmo princípio de originalidade de Três sombras: investe num profundo mergulho do inconsciente expressionista sem citá-lo, sendo-o sem procurar sê-lo. É o grande mérito de artistas cada vez mais raros que, de fora do ambiente histórico e cultural que gerou esta forma de expressão, conseguem pensar, naturalmente, de forma expressionista. Três sombras, uma grande HQ, acaba de entrar para um clube seleto.
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